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Associação Multidisciplinar de Investigação Científica (AMIC)
Revista Angolana de Ciências. Publicação Arbitrada, Semestral. Vol.2. No. 3. Ano 2020. (Julho - Dezembro).
RAC: revista angolana de ciências | ISSN: 2664-259X
Ngola Mbandi e a possibilidade de um quadro depressivo em
Angola Antiga
Ngola Mbandi y la posibilidad de una situación depresiva en la
Antigua Angola
Ngola Mbandi and the possibility of a depressive situation in Ancient
Angola
Sílvio Geraldo Ferreira da Silva
ORCID: 0000-0001-9031-2101
Mestrando em Letras pela Universidade Federal de Lavras UFLA. Lavras Minas Gerais
Brasil.
silviosilva57@yahoo.com.br
Ana Clara Prado Ferreira
ORCID: 0000-0003-2953-5933
Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário de Lavras - UNILAVRAS. Lavras
Minas Gerais Brasil
anacpfpsi@gmail.com
DATA DA RECEPÇÃO: Julho, 2020|DATA DA ACEITAÇÃO: Setembro, 2020
Resumo
Ngola Mbandi foi um dos soberanos do Reino do Ndongo durante o período
inicial da dominação portuguesa em Angola. O monarca teve um papel
importante para a manutenção da soberania do seu reino, embora não tenha
protagonizado um governo longevo. No contexto sócio-histórico em que foi
regente, Mbandi acumulou algumas derrotas, fato que permitiu, em certa
medida, o avanço das tropas invasoras. O presente trabalho busca, através de
uma perspectiva comparada entre literatura e história, analisar a possibilidade de
NgolaMbandi ter sido acometido por uma doença que ainda não era conhecida
nos século XVII; a depressão. Tendo em vista o governo de perdas, este pode ter
sido um gatilho para a desestabilização psicológica de Mbandi. A história e a
literatura apresentam muitas versões sobre a causa da morte do soberano, como
envenenamento, suicídio e tristeza. Sabe-se que a versão mais difundida é a
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morte por envenenamento, porém, neste trabalho, manteremos o foco na
possibilidade de morte em decorrência de um quadro depressivo, uma vez que a
literatura e a história também dão margem para esta versão. A possibilidade de
Mbandi ter cometido suicídio também pode ser compreendida como um traço
depressivo, assim como o possível isolamento dele na Ilha Kindonga após
repetidas derrotas nas batalhas contra os portugueses. Esta investigação justifica-
se por buscar compreender o governo e a morte de NgolaMbandi e, com isso,
objetiva contribuir para a disseminação do conhecimento sobre Angola Antiga
através das possibilidades proporcionadas pela literatura e pela história.
Palavras-chave: Ngola Mbandi; Angola Antiga; Depressão.
Resumen
Ngola Mbandi fue uno de los soberanos del Reino de Ndongo durante el período
inicial de dominación portuguesa en Angola. El monarca desempeñó un papel
importante en el mantenimiento de la soberanía de su reino, aunque no dirigió un
gobierno de larga vida. En el contexto social y historico en el que era regente,
Mbandi acumuló algunas derrotas, un hecho que permitió, en cierta medida, el
avance de las tropas invasoras. El presente trabajo busca, a través de una
perspectiva comparativa entre literatura e historia, analizar la posibilidad de que
Ngola Mbandi haya sido afectada por una enfermedad que aún no se conocía
en el siglo XVII; depresión. En vista de la pérdida del gobierno, esto puede haber
sido un desencadenante de la desestabilización psicológica de Mbandi. La
historia y la literatura presentan muchas versiones de la causa de muerte del
soberano, como envenenamiento, suicidio y tristeza. Se sabe que la versión más
extendida es la muerte por envenenamiento, sin embargo, en este trabajo, nos
centraremos en la posibilidad de muerte debido a una condición depresiva, ya
que la literatura y la historia también dan cabida a esta versión. La posibilidad de
que Mbandi se haya suicidado también puede entenderse como un rasgo
depresivo, así como su posible aislamiento en la isla de Kindonga después de
repetidas derrotas en batallas contra los portugueses. Esta investigación se justifica
buscando comprender el gobierno y la muerte de Ngola Mbandi y, con esto,
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tiene como objetivo contribuir a la difusión del conocimiento sobre la antigua
Angola a través de las posibilidades que brinda la literatura y la historia.
Palabras clave: Ngola Mbandi; Antigua Angola; Depresión.
Abstract
Ngola Mbandi was one of the sovereigns of the Kingdom of Ndongo during the
initial period of portuguese domination in Angola. The monarch played an
important role in maintaining the sovereignty of his kingdom, although he did not
lead a long-lived government. In the socio-historical context in which he was
regent, Mbandi accumulated some defeats, a fact that allowed, to a certain
extent, the advance of invading troops. The present work seeks, through a
comparative perspective between literature and history, to analyze the possibility
of Ngola Mbandi having been affected by a disease that was not yet known in
the 17th century, depression. In the view of the lost government, this may have
been a trigger for Mbandi's psychological destabilization. History and literature
present many versions of the sovereign's cause of death, such as poisoning,
suicide, and sadness. It is known that the most widespread version is death by
poisoning, however, in this work, we will keep the focus on the possibility of death
due to a depressive condition, since literature and history also give scope for this
version. The possibility that Mbandi committed suicide can also be understood as
a depressive trait, as well as his possible isolation on Ilha Kindonga after repeated
defeats in battles against the Portuguese. This investigation is justified by seeking to
understand the government and the death of Ngola Mbandi and, with this aims to
contribute to the dissemination of knowledge about Ancient Angola through the
possibilities provided by literature and history.
Key words: Ngola Mbandi; Ancient Angola; Depression.
INTRODUÇÃO
Ngola Mbandi foi um dos soberanos do Reino do Ndongo durante parte do
período de invasão portuguesa em Angola. Com poucos anos de governo, a
monarquia de Mbandi pode ter sido uma das menores da história do Ndongo.
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Quando é mencionado, o nome deste soberano está sempre atrelado às figuras
de seu pai, Ngola Kiluanji Kia Samba, ou de sua irmã, a lendária Rainha Ginga
Mbandi Kakombe, evidenciando que o seu desempenho político não possuiu a
mesma glória que os governos anterior e posterior.
A guerra entre invasores portugueses e o povo mbundu estava
acontecendo desde a infância de Ngola Mbandi. A luta pela soberania do
Ndongo perdurou desde o governo de Ngola Kiluanji até monarquias posteriores,
perpassando as de Mbandi e Ginga. Talvez, o protagonismo de Mbandi no
governo do Reino do Ndongo tenha sido o mais desastroso que se tem
documentado, pois ele acumulou derrotas e muitos dissabores ao longo do
tempo em que execeu seu papel sociopolítico.
O romance histórico A Rainha Ginga: e de como os africanos inventaram o
mundo (2015), de autoria do escritor angolano José Eduardo Agualusa, será a
base literária para a presente investigação comparada entre literatura e história
(Remak, 1994). Sabemos que são constatadas muitas versões sobre a morte de
Ngola Mbandi, insclusive mencionaremos algumas delas nesta investigação,
porém manteremos o foco na possibilidade da morte do soberano ter decorrido
de um quadro depressivo gerado pelo conturbado governo que exerceu.
O fato de surgirem tantas versões sobre os mesmos assuntos, principalmente
no que tange a história de Angola Antiga, pode dever-se à perda de
documentações hisricas ou até mesmo ao silenciamento histórico ao qual as
populações africanas foram submetidas ao longo dos anos. Sobre Ngola Mbandi,
é necessário dizer que o romance de Agualusa (2015) contempla algumas
versões sobre a sua morte, desta maneira vamos utilizar a obra para alicerçar a
ideia de um quadro depressivo do antigo monarca mbundu, além de mencionar
as outras possíveis causas de seu falecimento.
Esta pesquisa justifica-se pelo fato de auxiliar a compreender a história de
Angola Antiga, tomando como foco a possibilidade da causa mortis do soberano
Ngola Mbandi ter acontecido em decorrência de uma doença cujo nome ainda
não existia no século XVII; a depressão. Buscar conhecer sobre Ngola Mbandi é
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também uma tentativa de se compreender Angola Antiga. Não se pode mudar o
passado, entretanto tentar compreendê-lo é prestar um serviço ao progresso
humano.
NGOLA MBANDI E O CENÁRIO DE GOVERNO DO NDONGO
Ngola Mbandi, assim como Angola Antiga, apresenta alguns pontos ainda
desconhecidos. Este detalhe é bastante recorrente na hisria de Angola,
podendo afirmar que outros chefes de estado e personagens importantes ainda
são desconhecidos em demasia. O que se pode afirmar é que Ngola Mbandi
possuiu um protagonismo importante para a soberania de seu povo mbundu
apesar dos problemas que enfrentou durante o seu governo.
História Geral das Guerras Angolanas, de Antônio de Oliveira de
Cadornega, traz informações pertinentes sobre o contexto da Angola do século
XVII. Publicada pela primeira vez no ano de 1680, a obra de três tomos contempla
não apenas os conflitos entre invasores e povos tradicionais, mas também parte
da história e cultura daquele momento e lugar. Franco (2013) diz que a citada
obra se tornou uma das mais importantes fontes documentais sobre a presença
portuguesa, e de outros povos europeus, na região africana da costa do Oceano
Atlântico.
Cadornega, no seu Terceiro Tomo, em seção intitulada ―Pauta dos Reys de
Angola Despois da Entrada da Nossa Conquista nestes Reinos de Angola‖,
menciona a cronologia dos ngolas tendo como ponto de partida o governante
vigente no início da invasão portuguesa. A ordem dos reis então seria Angola
Aquiloangi. Angola Ambandi, seu filho. Angola Aquiloangi, filho de Angola
Ambandi. A Raynha Ginga Dona Anna de Souza [...]‖ (Cadornega, 1972, p. 306).
Como exposto pelo autor, Ngola Mbandi teria sido o segundo governante do
Reino do Ndongo, assim, foi o segundo a resistir às investidas portuguesas na
região seguindo os passos do pai, Ngola Kiluanji. Um detalhe que vale a pena ser
mencionado é que, segundo Cadornega (1972), um filho de Mbandi, chamado
―Angola Aquiloangi teria sido o terceiro na linha sucessória apresentada. Este
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detalhe parece ser um equívoco do autor, pois entre os governos de Ngola
Mbandi e da Rainha Ginga - Dona Ana de Souza - não houve nenhum monarca,
de acordo com a literatura e a história.
Um importante momento do governo de Ngola Mbandi é quando tem
início a vida sociopolítica de Ginga, sua irmã. Na ocasião, o soberano desejava
que o governador de Luanda, João Correia de Souza, recebesse a sua
embaixada ―a cabeça da qual iria a irmã mais velha, Ginga, que tinha por
conselheira preciosa‖ (AGUALUSA, 2015, p. 15). Ele queria que a embaixadora
negociasse o fim das invasões portuguesas, e, principalmente ―a retirada
portuguesa de Ambaca [, que] passou a ser uma das maiores reivindicações do
Ngola e seus representantes na década de 1620‖ (Fonseca, 2012, p. 107). Ginga
acolheu o pedido do irmão e negociou diretamente com o governador. João
Correia de Souza parecia inclinado a aceitar as exigências, porém, com a
mudança constante de governadores de Luanda, o pedido acabou não sendo
atendido e a presença portuguesa em Ambaca continuou.
Fonseca (2014, p. 03) argumenta que em mais de cinco anos de lutas, o
Ngola teve sua capital incendiada, súditos aprisionados, territórios invadidos;
enfraquecido se exilou em uma ilha do rio Kwanza‖. Aquele contexto adverso
pode ter sido bastante desgastante para Ngola Mbandi, tanto física quanto
psicologicamente. Como governante, aquela situação de perda da soberania
pode ter sido um gatilho para a desestabilidade emocional. ―Dois anos após o
episódio com o governador português, o então rei do Ndongo e meio-irmão de
Nzinga, Ngola Mbandi, morre sob circunstâncias duvidosas‖ (Camerano, 2018,
19). Glasgow (1982, p. 90) apresenta as possibilidades, tendo em pauta as duas
versões mais comuns, dizendo que:
―[...] desalentado com as sucessivas derrotas militares, e com o não
cumprimento dos termos do tratado pelos portugueses, Mbandi faleceu,
vítima, talvez, de auto-envenenamento, ou de uma trama armada por
Nzinga. O registro não é claro, a evidência é contraditória‖
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Para Glasgow (1982), a morte do soberano Mbandi poderia ter ocorrido por
suicídio, ou por uma ação de Ginga. O próprio autor tem o cuidado de dizer que
contradições, pois muitas lacunas na historiografia de Angola Antiga, e as
várias versões sobre os mesmos acontecimentos acabam por dificultar a
compreensão do que realmente aconteceu. Não se pode, portanto, afirmar com
precisão o que matou Ngola Mbandi, mas apresentar as possibilidades dentro da
documentação que se possui.
Na voz do narrador-personagem, Francisco José da Santa Cruz, o romance
de Agualusa apresenta algumas das possíveis causas da morte de NgolaMbandi.
Este diz:
Assim, segundo alguns, Ngola Mbandi morrera das mesmas febres comuns,
tão frequentes no país, que me haviam prostrado a mim. Segundo outros
morrera de desgosto por se sentir desrespeitado e humilhado pelos
portugueses. Asseguravam terceiros, entre os quais Domingos Vaz, que o rei
fora envenenado pela irmã, a qual vingara assim a morte do infeliz Quizua
Quiazele (Agualusa, 2015, p. 48).
O fragmento do romance apresenta algumas das possibilidades da causa
do falecimento de Mbandi, mencionando o desgosto do soberano com o rumo
de seu governo, indo ao encontro do que foi defendido por Glasgow (1982). Há a
versão de que Ginga teria envenenado Mbandi para vingar o assassinato do
filho, e, ainda, a versão da morte por causas naturais, que, apesar de não serem
o foco deste estudo, são possibilidades e merecem a menção. Costa e Silva
(2011, p. 303) também ilumina o cenário de falecimento de Mbandi dizendo que:
Mal se tinham passado dois anos dessa embaixada e ela reapareceu como
senhora do poder no Dongo, após disto suspeitavam os contemporâneos
ter ministrado veneno ao irmão, se é que este não se suicidou, por
decisão dos grandes chefes.
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Assim como Agualusa (2015) e Glasgow (1982), Costa e Silva (2011) também
fala sobre as possibilidades de um envenenamento cometido por Ginga e de um
suicídio, porém, a forma deste último seria diferente das versões apresentadas
pelos outros autores. Talvez este suicídio tenha sido uma penalização das
autoridades do reino, possivelmente os macotas, em resposta ao governo
desastroso de Mbandi. A morte do soberano, nesta versão, pode, talvez, ser
comparada à morte de Sócrates que, depois da acusação dos sofistas, foi
condenado a suicidar-se bebendo veneno.
A POSSIBILIDADE DE UM SOBERANO COM DEPRESSÃO
Nesta sessão, abordaremos, segundo as postulações da psicologia, o que é
a depressão e como Ngola Mbandi pode ter sido acometido por ela. A
depressão é uma doença que muitos ouviram falar de sua existência, mas
pouco se sabe profundamente sobre ela, sendo minimizada como uma tristeza
profunda. Porto (1999, p. 06) defende que a depressão pode ser encarada
também como a falta do prazer em executar tarefas que antes proporcionavam
bem-estar. Este autor compreende que a depressão acontece na vida do
indivíduo de três maneiras: como sintoma, como síndrome e como doença.
Compreende-se por sintomas depressivos quadros clínicos como os transtornos
pós-traumáticos, alcoolismo, esquizofrenia, dentre outros. Estes sintomas podem
surgir também como resposta a momentos estressantes da vida, sejam questões
familiares, sociais e/ou econômicas. A depressão, enquanto ndrome, pode ser
entendida não apenas como alteração de humor, mas também como algo que
afeta as funções cognitivas, psicomotoras e vegetativas. Compreender a
depressão enquanto doença é algo que vai de acordo com os manuais
psiquiátricos vigentes, o que depende do momento histórico e científico.
Dalgalarrondo (2008) aponta que existem diversos fatores causais e
desencadeantes para as ndromes depressivas, sejam de cunho biológico,
genético e neuroquímico. Ele comenta também que é comum que as síndromes
e reações depressivas possam surgir em contexto de perda, seja essa perda de
um ente querido, emprego, status social, moradia, ou algo puramente simbólico.
Hofer (1996) e Del Pino (2003) reafirmam que no ponto de vista da ciência
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psicológica, as síndromes depressivas tem alta relação com a experiência de
perda e luto.
No entendimento de Barlow e Durand (2016), a depressão é dividida em
tipos e categorias, e depois é subdividida em subtipos para especificar melhor o
diagnóstico do sujeito em questão. Durand (2016) comenta que o transtorno de
humor mais comum é o transtorno depressivo maior, onde não episódios de
mania ou de hipomania, sendo raro existir apenas um episódio durante a vida. Se
houver maior ocorrência desses episódios, com intervalo de aproximadamente
dois meses, é chamado então de transtorno depressivo maior recorrente. Essa
recorrência deve ser levada em consideração, pois pode vir a se tornar algo
crônico, não apenas alguns episódios, tendo chance de recorrência de quarenta
por cento no segundo ano após o primeiro episódio (Boland & Keller, 2009). a
distimia tem certa semelhança com o transtorno depressivo maior, tendo dois
sintomas a menos e duração de pelo menos dois anos. Em alguns casos, pode
durar até mais de dez anos.
Dentro do que a academia entende por depressão, assim como o DSMV
(Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais), existem diversas
síndromes e transtornos, tais como: distimia, episódios depressivos, transtorno
depressivo recorrente, depressão atípica, depressão tipo melancólica, depressão
psicótica, estupor depressivo, depressão ansiosa, depressão orgânica, dentre
outros transtornos e síndromes. Existe esta diferenciação por motivos como o
tempo de duração,a severidade dos sintomas e o seu curso (crônico ou não-
crônico).
Quando se trata do quadro do Ngola Mbandi, temos alguns relatos e
situações que podem nos dar indícios de que ele carregou alguns sinais e
sintomas depressivos. Glasgow (1982) comenta que após a derrota em um
ataque mal sucedido deferido contra os portugueses, sem o conhecimento de
Ginga, Ngola Mbandi procurou se isolar na Ilha Kindonga, localizada no Rio
Kwanza. Neste momento da história do Ngola, temos uma perda, sendo este um
fundamento da depressão. Os efeitos de sua derrota são percebidos tanto em
termos físicos, quanto moral e de status social. Além disso, vemos como resposta à
perda um isolamento social, como forma de esquiva e apatia da realidade,
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sendo esses traços depressivos evidentes. A melancolia é um especificador
presente neste e em outros momentos de sua hisria. Para além do isolamento, é
demonstrado o desinteresse nas suas atividades anteriores, assim como uma
culpa excessiva e inapropriada. Pinheiro & Tamayo (1984) defendem que o
isolamento e a solidão na depressão acontecem devido à falta e/ou deficiência
de relacionamentos pessoais significativos.
indícios grandes de infelicidade, humor depressivo, anedonia, ideias de
culpa, angústia, dentre outros traços e sinais depressivos em Ngola Mbandi. Temos
a versão de que Mbandi teria morrido de desgosto na Ilha Kindonga (Fonseca,
2013). Relatos como este nos apontam como o contexto hisrico o afetou
psicologicamente e emocionalmente, tendo tamanha desesperança e tristeza
decorrente do que ele passou durante anos com seu reino e seu povo. Ao relatar
o período de desgosto, podemos inclusive compreender a complexidade do seu
quadro, pois em níveis estatísticos, o período de dois anos com sintomas
depressivos (por mais que aqui não consigamos obter todos os sintomas durante
todo esse período) é algo a se levar em consideração, principalmente quando
compreendemos que esses foram seus últimos anos de vida.
Fonseca (2012, p. 123) faz referência a um documento escrito pelo
governador de Luanda, Fernão de Souza, no qual ele menciona a morte por
suicídio em decorrência da tristeza de não ter suas exigências atendidas pelos
portugueses. O texto diz:
―E vendo ElReiAngolla estas dilaçoens que eram enganos, e de paixão
morreo e dizem que de peçonha que ele mesmo tomou de desesperado.
Morto ele ficou em seu lugar Dona Ana de Sousa Ginga Ambande que
era cristã, e avizou o Bispo de sua morte pedindo cumprimento dos autos a
que o Bispo não deu cumprimento logo
1
.‖
Vemos, neste trecho, que o sentimento de incapacidade de proteger seu
povo e cumprir com o seu dever o toma psiquicamente. Segundo Wilson (1988),
1
O documento mencionado pode ser lido na obra Fontes para a história de Angola. Heintze.
Fontes para a história de Angola.1985. Vol.I. doc.23. p.196.
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citado por Campos (2000), podemos relacionar a depressão de culpa
(concepção anaclínica), que inclui o medo de perder o amor ao objeto de
desejo o seu povo e reino -, tendo para si o sentimento de autoacusação e
inferioridade. Deve-se levar em consideração também a sua relação com sua
irmã, trazendo-lhe ainda mais um olhar para si de inferioridade.
CONCLUSÕES
Como consta no decorrer do trabalho, a depressão é altamente
relacionada com a perda e o luto, sendo que essa perda deve ser significativa e
simbólica. Compreendendo isto, primeiramente, independente de diagnóstico e
de aspectos estatísticos, vemos uma relação profunda do sofrimento do soberano
com suas perdas, seja esta perda de batalhas, de disputas poticas e/ou de
status. Sua história é permeada de um nível grande de sofrimento psíquico.
Por mais que não consigamos diagnosticar o soberano por questões éticas
e por não termos contato direto com seu caso clínico, podemos tirar algumas
conclusões sobre a relação de sua morte com todo esse sofrimento passado.
Devido às perdas de batalha e perdas políticas, ele passou a se isolar em
determinado momento, tendo uma postura negativa perante a vida. Este
sofrimento todo dura pelo menos dois anos, que é um dado relevante para
compreendemos o tamanho do sofrimento. Também podemos observar o
quanto o quadro psicológico afetava suas funções e relações interpessoais.
Vemos um sentimento de culpa muito presente, junto com a apatia e
melancolia. Quando encontramos esses traços e sinais depressivos, é muito
comum percebermos uma visão de falta de sentido quanto a vida, relações e
atividades que antes eram realizadas. Sendo assim, pois mais que o diagnóstico
não possa ser conclusivo, podemos relacionar sua morte ao seu histórico
depressivo, incluindo seus sinais e sintomas. Por mais que haja a suposição de uma
morte por envenenamento (Silva, 2020), não se pode desconsiderar o estado
psicológico de Ngola Mbandi.
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Sabemos que as versões mais difundidas, e aceitas, sobre a causa mortis de
Ngola Mbandi são aquelas que apresentam um envenenamento protagonizado
por Ginga, entretanto, como a história e a literatura trazem outras possibilidades,
é interessante também investigá-las e tentar compreendê-las. As brumas do
desconhecimento ainda estão presentes na história e na memória de Angola,
portanto, iluminar um pouco mais Ngola Mbandi é também iluminar a
historicidade do país.
AGRADECIMENTOS: Agradecemos aos nossos familiares que nos deram o suporte
durante o estudo que culminou neste artigo e ao corpo editorial da RAC Revista
Angolana de Ciências pela prontidão em esclarecer qualquer dúvida que viesse
a surgir. Gratidão!
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