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Associação Multidisciplinar de Investigação Científica (AMIC)
Revista Angolana de Ciências. Publicação Arbitrada, Semestral. Vol.3. No.1 . Ano. 2021. (Janeiro-Junho).
RAC: Revista Angolana de Ciências | ISSN: 2664-259X
Resumo de livro: Mendonça, J. L. (2019). Se os ministros
morassem no musseque. Angola: Chela Editora.
Book Abstract: Mendonça, J. L. (2019). If ministers lived in the
musseque. Angola: Chela Editora.
Resumen de libro: Mendonça, J. L. (2019). Si los ministros vivieran en el
musseque. Angola: Chela Editora.
Ermelinda Liberato
ORCID: 0000-0002-9857-4269
Universidade Agostinho Neto
ermelinda.liberato@gmail.com
A história! Como ela nos relembra e traz sempre para o presente
acontecimentos marcantes do passado que continuam a (re)desenhar o nosso
futuro, mas que teimamos em ignorar. E é precisamente isso que a presente obra
de José Luís Mendonça nos vem, mais uma vez, relembrar. E foi com o objetivo
de se desafiar, assim como aos leitores, que o autor nos brinda com Se os
ministros morassem no musseque, escrita entre 2010 e 2012, numa adaptação
mais simples do seu romance “O Reino das Casuarinas”, um excelente exercício
de reflexão crítica sobre aqueles que foram os primeiros 20 anos da Angola
independente, um “período crucial da história de Angola” (p. 5), que nos ajuda
a compreender como se moldou o sistema económico, político, social,
educativo e cultural que rege o nosso quotidiano.
A obra romanceada propõe-se assim a um exercício de memória, que deve
prevalecer, aliada a uma erudição inter e transdisciplinar, o que faz com que a
sua leitura, análise e interpretação constitua, acima de tudo, um desafio. Ao
dedilhar brilhantemente alguns acontecimentos históricos, outros do quotidiano,
como o recolher obrigatório por conta da situação de guerra, que enformaram,
de certa forma, o a vida e os modos de vida dos angolanos no geral, mas
sobretudo as suas referências e emoções, como nos é retratado pela
personagem principal do romance, Primitivo, nome de guerra de um ideólogo
da causa angolana, sucumbido ante à “ilustração do pior drama da
independência: a negação do homem negro pelo próprio negro no poder” (p.
83), José Luís Mendonça dá-nos assim as primeiras pistas para entendermos
como e porquê desconseguimos Angola.
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Revista Angolana de Ciências. Publicação Arbitrada, Semestral. Vol.3. No.1 . Ano. 2021. (Janeiro-Junho).
Particularmente interessante é a sua reflexão em torno de questões cruciais que
continuam atuais, tais como: a narrativa em torno da raça, uma herança da
política colonial que continuou a orientar os desígnios do país - Primitivo era ele
próprio considerado um cabrito(p. 13) - o aumento do número e “condição
de mutilado de guerra” (p. 9), os trágicos acontecimentos do 27 de maio de
1977” (p. 6), que, entre outras consequências, silenciou “as mágicas vozes do
semba, David Zé, Artur Nunes e Urbano de Castro” (p. 52), as referências culturais
aos célebres poetas Ernesto Lara Filho e António Jacinto, e, como não podia
deixar de ser, à economia nacional, planificada, depois liberalizada mas sempre
com a presença do setor informal, garante da sobrevivência diária dos
angolanos no geral.
De realçar ainda acontecimentos históricos-políticos que continuam presentes
nos debates atuais, como “o acampamento de famílias de eurodescendentes”
(p. 24) no aeroporto de Luanda, os conhecidos retornados que partiam em
busca de segurança e melhores perspetivas de futuro, a instalação da “nova
vaga de revolucionários, maoístas, marxistas-leninistas e comunistas radicais…”
(p. 28), a ideologia do movimento de libertação que assumiu a governação do
país, de implantação de uma “ditadura do proletariado” (p. 30) e disciplina da
“pequena burguesia urbana” (p. 30) e do “lumpen proletariado” (p. 30),
narrativa ancorada em passagens dos discursos do primeiro presidente e guia
imortal da nação, Dr. António Agostinho Neto, entre outros.
É caso para nos perguntarmos se estamos diante de uma consolidação do
projeto de país que queríamos ter, ou apenas em presença de um momento
que teima em se perpetuar. E aqui uma vez mais a história, com as suas curvas e
contracurvas, a chamar-nos a atenção para as nossas vivências. Trata-se, de
fato, de uma fonte de informação que procura acima de tudo despertar em nós
reflexões que nos permitam compreender o presente e, acima de tudo, tal
como afirma o editor Jesus Domingos (Wassandjuka Ukwakusima) logo nas
primeiras páginas, “pensarmos e repensarmos Angola” (p. 4).